1ª Conferência Internacional de Cidades Michelin — Dia 2

Estou, representando a cidade de Guarulhos, na 1ª Conferência Internacional de Cidades Michelin, realizado pela cidade de Clermont-Ferrand, na França, sede mundial da Michelin, onde participam 21 países e mais de 40 cidades.

Neste 2º dia em nossa missão tivemos a oportunidade de conhecer incríveis iniciativas locais inovadoras e sustentáveis: A estação de tratamento de água do Vale do Allier, localizada em Cournon-d’Auvergne, e a usina de aquecimento de Clermont-Ferrand.

A estação atual foi construída no lugar de uma estrutura mais antiga que datava de 1922, com um investimento de 17 milhões de euros. A obra foi inaugurada pelo prefeito Olivier Bianchi em 2016, tendo sido executada em 24 meses, e aplica um processo de tratamento específico para as características da água da região, ricas em ferro e manganês, materiais que poderiam danificar os encanamentos da cidade no médio-longo prazo se não tratados.

O processo de tratamento envolve uma etapa inicial com hidróxido de cálcio, que reduz a quantidade de minerais dissolvidos na água e um tratamento subsequente através de carbono ativo, que remove contaminantes da água. Depois disso a água é filtrada através do uso de tecnologia de ultrafiltração desenvolvida pela empresa Pentair — a estação conta com 44.000 m2 de área de superfície de membrana filtradora, capaz de remover partículas incrivelmente pequenas, incluindo bactérias, vírus, parasitas e alguns resquícios de substâncias farmacêuticas. Este processo reduz a necessidade de cloração, e a estação trata em ritmo normal 25.000m3 de água por dia, mas tem capacidade de produção de até 50.000m3 de água por dia caso necessário.

A usina de aquecimento de Clermont-Ferrand, por sua vez, é uma iniciativa de sustentabilidade energética fantástica apoiada por financiamento a fundo perdido do governo federal Francês, que se esforça em uma agenda de transição energética que aumente a participação de fontes renováveis de energia nos gastos energéticos do país.

Ela é alimentada com biomassa (lascas de madeira), e possui um sistema limpo que realiza a queima deste material para geração e energia térmica, com o uso desta energia técnica para aquecer um sistema fechado de água que transporta o calor para cerca de 6.000 residências. A usina processa cerca de 5.000m3 de biomassa por dia e possui capacidade de estocar 15.000m3, tendo autonomia de até 3 dias quando completamente abastecida. Em situações emergenciais em que a queima precise ser potencializada — como no caso de períodos de frio mais intenso — a usina conta com cilindros de gás que potencializam o processo.

A usina de biomassa é diferente de usinas térmicas convencionais pelo fato de utilizar um processo limpo e com uso integral de todos os componentes, aplicando um conceito de economia circular em que tudo é aproveitado e gera valor. Os gases oriundos do processo de queima são filtrados para evitar o lançamento de poluentes na atmosfera e as cinzas da biomassa são utilizadas na produção e fertilizantes agrícolas.

Embora a preocupação com geração de energia térmica não se comunique muito com a realidade da maior parte do Brasil, uma vez que não sofremos com picos de frio na maior parte do nosso território, as lições sobre eficiência energética são válidas. Temos um sistema energético que utiliza massivamente fontes renováveis (83,3% do nosso consumo interno é abastecido por fontes renováveis, enquanto a média mundial é de 24,1%.), mas os extremos climáticos têm mostrado que nossa matriz hidroelétrica por si só não é capaz de fornecer energia a custo acessível para todos. Quando a produção hidroelétrica é insuficiente, precisamos ativar usinas térmicas, o que encarece nossas contas de energia e, em especial, a conta de energia do nosso setor produtivo, o que gera um efeito em cascata na nossa economia.

É por este motivo que no Brasil o setor produtivo tem protagonizado iniciativas de promoção da eficiência energética, como forma de reduzir os custos decorrentes do consumo da energia que vem das distribuidoras, através da integração em suas plantas de fontes limpa se renováveis de energia, como a energia solar. É preciso, porém, estimular uma maior consciência da população sobre este tema, que abrange desde o consumo consciente até a adoção de métodos alternativos que gerem maior aproveitamento de recursos naturais renováveis, como a utilização da luz solar em detrimento da luz elétrica em espaços interiores, a implantação de sistemas de aquecimento solar de água residencial, entre outros.

Quando aumentamos a eficiência em todos os fronts geramos mais valor para nossa cidade, tanto do ponto de vista econômico quanto da qualidade de vida. Estas searas também são um espaço aberto para novos empreendimentos — identificar ineficiência e promover eficiência é um grande negócio em qualquer parte do mundo.

Rodrigo Barros

Secretário de Desenvolvimento Científico, Econômico, Tecnológico e de Inovação

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