Smart City Expo World Congress 2017 – Dia 1

A manhã desta terça-feira foi de intensa atividade no Smart City Expo World Congress 2017, em Barcelona. As atividades no auditório se iniciaram com o painel “Empowering Cities, Empowering People” (Empoderando Cidades, Empoderando Pessoas), seguido dos painéis “Rethinking Urban Governance: At the service of population’s needs” (Repensando a Governança Urbana: A serviço das necessidades da população) e “Collective Efforts to Tackle Global Urban Challenges” (Esforços Coletivos para Enfrentar Desafios Urbanos Globais).

Com uma composição plural, contando com representantes do poder público, da iniciativa privada e de agendes internacionais com ampla experiência em cada um dos assuntos, foi possível extrair contribuições valiosas de todas as apresentações e debates.

No primeiro painel foi interessante verificar as sinergias de muitas das ideias apresentadas com as linhas de ação defendidas no planejamento da SDCETI e do Governo Guti  empoderar as pessoas e ampliar sua capacidade de participação efetiva, buscar soluções de natureza participativa através da incorporação de tecnologia na interface poder público – cidadão.

O segundo painel tratou de forma mais especifica das formas como o poder público pode identificar e se mobilizar diante das necessidades de sua população, com foco na felicidade das pessoas, sejam habitantes da cidade ou visitantes, através da construção de uma base de inteligência (Big Data) organizada e apresentada de forma acessível para todos. Para isso é preciso que o governo se capacite para não só colher, mas analisar os dados, auxiliando os prefeitos na tomada de decisão.

O último painel da manhã ressaltou a importância de não só agregar a tecnologia para enfrentar os desafios globais das cidades, mas a importância de promover uma mudança de cultura para inserir no ideário da população uma mentalidade de colaboração, sem a qual os resultados da tecnologia ficam mais restritos. A Tecnologia é uma aliada da transparência, e pode tanto mostrar os pontos fortes quanto os pontos fracos do governo. Dentro de uma mentalidade adversarial, as pessoas só veem os problemas identificados como “problema do outro”, enquanto numa mentalidade colaborativa podemos enfrentar os problemas como “nosso problema” e trabalharmos juntos para buscar a solução. Dentro desta mentalidade colaborativa há espaço para o fortalecimento tanto do setor público quanto do setor privado, desenvolvendo ideias e soluções que reduzem os custos públicos e criam produtos que geram resultados financeiros para o setor privado.

O início da tarde contou com a fala de Joan Clos, prefeito de Barcelona de Setembro de 1997 até Setembro de 2006 e atual Diretor Executivo do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos – UN-Habitat, e que abordou o tema da Urbanização Inteligente. Ele descreve um processo de cinco fases:

  1.    PolíticasUrbanas Nacionais – que no caso brasileiro se trata do Estatuto das Cidades (Lei 10257/2001) que estabelece as diretrizes gerais da nossa política urbana;
  2.      LegislaçãoUrbanística – localizada principalmente nos Municípios e envolvendo o Plano Diretor como instrumento principal de planejamento e a Lei de Uso e Ocupação do Solo para ordenar a ocupação urbana em linhas específicas;
  3.      PlanejamentoUrbano – o trabalho técnico constante desenvolvido por municípios através de profissionais próprios ou contratos com conhecimentos especializados nesta área e que podem pensar a cidade presente e futura de forma rigorosa e sobre as formas de irmos do presente que temos ao futuro que queremos para a cidade;
  4.    Modelos de Financiamento Urbano – uma área na qual o Brasil ainda precisa se desenvolver de forma mais efetivam, indo além da mera política social de habitação para envolver o crescimento ordenado e sustentado das cidades; e
  5.    Implementação Local – ponto final de todo o processo em que os passos anteriores resultam nas mudanças concretas da vida urbana.

Destes 5 passos, 4 estão no âmbito dos Municípios, o que reforça a necessidade de trabalharmos a posição dos Municípios na nossa Federação, que em grande parte ainda são financeiramente dependentes dos Estados e da União, com orçamentos engessados e com sérias dificuldades para pensar um Modelo de Financiamento Urbano eficaz, fase essencial para chegarmos à Implementação daquilo que foi planejado.

Após esta fala e uma pausa para o almoço, o próximo painel que acompanhamos tratou do tema “Co-production in Action: Towards more Equitable Cities” (Co-produção em Ação: Em direção a cidades mais igualitárias)Este painel contou com a participação do Prefeito de Vitória/ES, Luciano Rezende, que reforçou a ideia de que não acredita que o futuro esteja em governos verticalizados, mas sim em governos colaborativos. Esta foi a linha predominante no painel, ressaltando a importância da informação à população combinada com a promoção da discussão e envolvimento. Nesta seara foi de grande interesse as contribuições dos acadêmicos do Instituto Austríaco de Tecnologia e da Universidade de Tokyo.

Na apresentação austríaca foi exposto o modelo de abordagem de participação multinível utilizado em projetos de renovação urbana em Viena, consistente em 5 passos:

  1. despertar interesse;
  2. reunir contribuições;
  3. envolver/engajar/manter interesse;
  4. fornecer serviços customizados;
  5. Reunir e implementar o feedback;

A contribuição japonesa, por sua vez, apresentou a iniciativa “My City Forecast” (mycityforecast.net), construída com base em informações abertas sobre o planejamento urbano de diversas cidades japonesas, sendo capaz de apresentar estas informações de forma interativa, inclusive com funções customizadas de simulação em tempo real. Esta ferramenta serviu de exemplo da ideia de que não basta a abertura de dados – os dados precisam ser apresentados de forma compreensível ao cidadão, o que é realizado por meio da simulação do estado futuro das áreas residenciais urbanas de 2015 até 2040, indicando como as vidas destes residentes deverão mudar com base em 14 indicadores.

No painel “Strategic Alliances to Ensure a Green and Sustainable Urban Future” (Alianças Estratégicas para Garantir um Futuro Urbano Verde e Sustentável), a reflexão principal foi sobre como garantir os resultados ambientais em sentido amplo em uma realidade em que o planejamento é essencialmente um esforço local. Nesta seara é que surge a necessidade de alianças entre os entes locais para a implantação de ações efetivas em matéria de sustentabilidade, através da integração entre necessidades individuais e coletivas – isso vale tanto quando consideramos as diversas comunidades em uma cidade ou entre várias cidades em uma região. Felizmente este é um movimento que vem se fortalecendo entre os Municípios do Brasil, e as diversas iniciativas de órgãos como a própria Frente Nacional dos Prefeitos, responsável por estruturar a comitiva que participa neste evento, mostram que as alianças entre Municípios são o caminho para a maturidade de políticas urbanas sustentáveis.

No último quadro busquei acompanhar dois painéis distintos: “Rethinking Urban Infrastructures in the Digital Age” (Repensando Infraestruturas Urbanas na Era Digital) e “Boosting Collaborative, Sharing and Circular Cities” (Alavancando Cidades Colaborativas, Compartilhadoras e Circulares).

No primeiro painel o Prefeito de Campinas e Presidente da Frente Nacional dos Prefeitos, Jonas Donizete, ressaltou a importância do investimento em infraestrutura dentro do contexto da tríplice hélice (Estado, Academia e Empresas) para empoderar empresas e pessoas através do desenvolvimento de aplicações que facilitem a vida do cidadão, possibilitando não só o recebimento de informação, mas a efetiva integração na vida dos munícipes, promovendo a interação e participação. Neste mesmo painel houve a intervenção dos representantes de empresas desenvolvedoras de soluções de Cidades Inteligentes como a Silver Spring (Burak Aydin) e a Hexagon (Uwe Jasnoch), que destacaram a tendência de crescente urbanização da população mundial e a necessidade de promover a conectividade e inteligência através da tecnologia para enfrentar os problemas que essa crescente urbanização acarreta;

No último painel que acompanhamos, a principal reflexão é de que, em mundo com recursos finitos, o desenvolvimento de economias circulares e de compartilhamento é essencial para a efetiva sustentabilidade das cidades. Reciclagem e reuso são só o começo, e inovações que reduzam o descarte de recursos irão dar o tom da economia do futuro, não só pelo menor impacto ambiental, mas pelo ganho geral de eficiência no uso dos recursos naturais finitos de que dispomos. Isso passa pelo incentivo das cidades ao teste e implementação deste tipo de tecnologia, aproximando os inovadores dos grandes produtores que podem dar escala a essas mudanças para o desenvolvimento de um “co-design”, potencializando o avanço tanto para os pequenos inovadores quanto para a economia em geral, engajando os diversos atores através da educação. Este é um campo em que o Brasil ainda tem muito a avançar, e um equipamento capaz de promover isto são os Centros de Inovação Tecnológica, ao aproximar academia e empresa para pensar os problemas num âmbito mais amplo e externo às empresas, com possibilidade de revisão de processos e produtos.

Foi um dia de agenda cheia, mas lotado de reflexões, aprendizados, e novas visões sobre velhos problemas.
Agora precisamos construir as soluções, o que não virá sem uma mentalidade colaborativa e muito trabalho.

RB

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